O que decide a durabilidade de um condomínio fica sob o solo, diz Fauze Youssef Skaff

Um terço das cidades brasileiras não tem drenagem. Para o presidente da Skaff Construtora, a conta desse descompasso chega anos após a entrega

A região administrativa de Campinas concentrou 2.765 lotes lançados no primeiro trimestre de 2026, o equivalente a 38% de tudo o que foi lançado entre os 81 municípios paulistas pesquisados pela Brain Inteligência Estratégica para a AELO (Associação das Empresas de Loteamento Urbano) e o Secovi-SP. Foram 11 empreendimentos em três meses, o maior número entre todas as regiões administrativas analisadas. No agregado, o estado registrou 7.297 lotes em 27 empreendimentos no período, com retração de 19% na comparação anual, um recuo que não se distribuiu de forma homogênea: enquanto parte do mercado desacelerou, o eixo do interior manteve ritmo.

A demanda ajuda a explicar a assimetria. Pesquisa da Brain apresentada pelo Secovi-SP em maio, cobrindo 42 cidades do interior paulista, da Baixada Santista e da Região Metropolitana, apontou que 49% dos brasileiros pretendem comprar um imóvel, sendo 29% em até um ano. É um patamar que empurra incorporadoras para terrenos maiores, mais baratos e mais distantes dos centros consolidados. O loteamento fechado e o condomínio de médio porte em cidade média deixaram de ser exceção e viraram o produto padrão de um ciclo inteiro.

O que raramente entra no anúncio de lançamento é que a vida útil desses empreendimentos não é decidida na fase que aparece nas maquetes. Ela é decidida antes, quando o terreno ainda é terreno. Cortes, aterros, nivelamento, compactação do solo e controle de cotas definem as inclinações das vias internas, o comportamento do solo sob carga e as condições em que toda a infraestrutura subterrânea vai operar pelas décadas seguintes. A terraplanagem é a etapa em que o projeto de drenagem deixa de ser desenho e passa a ser topografia.

E é justamente aí que o país tem um problema documentado. O Diagnóstico Temático do Sistema Nacional de Informações em Saneamento Básico mostra que apenas 40,44% dos municípios brasileiros possuem sistemas exclusivos de drenagem pluvial, e que 32,49% relataram não ter nenhum. Levantamento do Instituto Trata Brasil calcula que o aporte por habitante precisaria saltar dos atuais R$43,79 para R$117,01 para universalizar o serviço até 2033. Em outras palavras: o empreendimento novo chega a um município que, na média, não tem para onde mandar a água.

Quando a preparação do terreno é tratada como formalidade de cronograma, a conta não desaparece, apenas muda de endereço. Recalques diferenciais produzem fissuras em fundações, pisos e muros. Desníveis mal resolvidos rompem tubulações e deformam o pavimento. Erosões comprometem áreas comuns vendidas como atributo do produto. O morador descobre o problema anos depois, na assembleia que aprova a taxa extra.

O custo dessa correção tardia é mensurável. Estudo da Universidade de Brasília aponta que o retrabalho em obras pode elevar os custos totais em até 42%, um índice que soma gastos diretos e indiretos e mede o impacto percentual sobre o previsto. Em fundações e infraestrutura enterrada, o efeito é ainda mais severo, porque a intervenção corretiva exige desfazer camadas que já receberam outras camadas em cima. Refazer não é repetir a tarefa: é pagar de novo por tudo o que veio depois dela.

É esse raciocínio que orienta a atuação de Fauze Youssef Skaff, presidente da Skaff Construtora, empresa que atua com terraplanagem, pavimentação asfáltica e infraestrutura para empreendimentos residenciais, comerciais e industriais no interior de São Paulo e em Mato Grosso do Sul. Em análise publicada em julho, Fauze Youssef Skaff alertou que o boom imobiliário sul-mato-grossense avança mais rápido do que a infraestrutura que deveria sustentá-lo. O diagnóstico que ele faz agora é a versão microscópica do mesmo problema, aplicada ao lote.

A leitura de Fauze Youssef Skaff é que cada terreno impõe um projeto próprio. Relevo, tipo de solo, capacidade de suporte e comportamento diante de chuva não se repetem de gleba para gleba, o que torna a padronização um risco disfarçado de economia. É o estudo geotécnico anterior à obra que define volumes de corte e aterro, compactação e estabilidade de taludes. Sem ele, a máquina entra no terreno resolvendo o que encontra, não o que o projeto pediu.

“A terraplanagem não é a etapa que antecede a obra. Ela é a obra que ninguém vê, e é a única que não dá para refazer depois que o condomínio está de pé”, afirma Fauze Youssef Skaff. 

Há ainda o componente que extrapola o muro do condomínio. Um terreno preparado com critério controla erosão e reduz o escoamento superficial despejado na rede pública. Em cidades médias que receberam dezenas de empreendimentos simultâneos nos últimos anos, a soma dessas decisões privadas define a capacidade de drenagem da malha inteira. O condomínio que resolve mal a própria água não devolve o problema apenas ao seu morador. Devolve à rua de fora.

“Quando um empreendimento novo alaga, quase sempre a explicação está três anos atrás, numa cota que foi aceita como suficiente”, diz Fauze Youssef Skaff. 

O interior paulista deve seguir absorvendo a demanda, e as cidades médias vão continuar recebendo bairros inteiros de uma vez. A pergunta que o ciclo ainda não respondeu é se o critério aplicado ao que se vê, a fachada, o paisagismo, a área de lazer, chegará com a mesma exigência ao que ninguém fotografa. Porque o que está sob o solo é a única parte do empreendimento que o comprador não consegue inspecionar, e a única que ele vai pagar duas vezes se estiver errada.

Compartilhar

Últimas

Mais buscadas

Relacionadas

Por que alguns empresários crescem enquanto outros permanecem estagnados?

Cresce no país uma geração de empresários que substitui a intuição por método, e nomes como o de Filipe Trabuco ganham protagonismo ao orientar essa transição com estratégia, análise de mercado e visão de longo prazo

Em três meses, consórcio salta para o quarto maior de Minas em número de prefeituras

Ritmo de adesão coloca o CONSORMULTI como o consórcio público que mais cresce em Minas Gerais, reunindo cidades de todas as regiões do estado em torno de compras compartilhadas e assistência técnica

Por que prefeituras estão decidindo crescer em bloco, e o que a escala muda nessa conta

O avanço acelerado de um consórcio mineiro recoloca uma tese conhecida no centro do debate: escala, corpo técnico e poder de negociação se constroem em conjunto. O associativismo deixa de ser aposta e vira decisão de gestão

A força da união que está transformando o municipalismo em Minas Gerais

Com mais de 100 municípios integrados, o CONSORMULTI se consolida como o quarto maior consórcio público de Minas Gerais em número de prefeituras e desponta como o que mais cresce no estado