Legaltech Iter lança IA que amplia carteira de processos sem aumentar equipe

Lucas Barbosa Oliveira afirma que inteligência artificial deve assumir tarefas operacionais do contencioso, enquanto estratégia e decisão permanecem sob responsabilidade dos advogados

A inteligência artificial começa a romper uma lógica histórica da advocacia: a necessidade de contratar mais profissionais à medida que aumenta o número de processos. Para Lucas Barbosa Oliveira, fundador e CEO da Iter, escritórios e departamentos jurídicos poderão administrar carteiras maiores sem ampliar suas equipes na mesma proporção. “Hoje, a lógica se inverteu. Se você tem um escritório e uma ferramenta que consegue resolver essas dores, você consegue ter mais casos, mais receita, sem crescer em tamanho”, afirmou Lucas. O advogado deixou o Pinheiro Neto Advogados depois de 13 anos para criar a Iter, empresa de tecnologia voltada ao contencioso tributário. A decisão nasceu da percepção de que o volume de processos já não poderia ser absorvido apenas com expansão de equipes. Na prática tradicional, diferentes profissionais e sistemas participam do acompanhamento processual, pesquisa de jurisprudência, análise de decisões, elaboração e revisão de recursos. A proposta da Iter é concentrar esse fluxo em uma tecnologia proprietária de inteligência artificial. O sistema acompanha processos, captura decisões, identifica a matéria discutida, analisa a medida cabível e prepara uma minuta para revisão do advogado responsável. Em operações com grande quantidade de demandas repetitivas, Lucas afirma que o impacto sobre a produtividade pode ser expressivo. Durante a entrevista, estimou que, em determinados cenários, uma equipe de 2 pessoas apoiada pela tecnologia poderia executar um volume de trabalho que antes demandaria cerca de 20 profissionais. Segundo ele, um dos clientes da Iter administra mais de 10.000 execuções fiscais, exemplo de operação em que a automação pode reduzir a necessidade de ampliar continuamente a estrutura jurídica.

IA não deve substituir decisão do advogado

Apesar do avanço da automação, Lucas defende uma fronteira clara para o uso da inteligência artificial no Direito. A tecnologia pode organizar informações, pesquisar, classificar processos e produzir minutas, mas a decisão jurídica deve continuar sob responsabilidade humana. “O que não deve ser delegado para a máquina é a decisão”, afirmou. Segundo ele, cabe ao advogado definir se uma medida judicial deve ser proposta, avaliar riscos, estabelecer a estratégia processual, revisar o material produzido pela tecnologia e assumir a responsabilidade pelo documento apresentado. Na Iter, segundo Lucas, o sistema utiliza uma base de conhecimento previamente estruturada e validada por advogados, em vez de buscar livremente informações na internet para elaborar argumentos. A minuta produzida pela plataforma passa obrigatoriamente pela revisão do profissional responsável antes de ser utilizada. Para o fundador da empresa, a consequência da inteligência artificial não será o desaparecimento dos advogados, mas uma mudança no tipo de trabalho realizado por eles. “Eu entendo que o advogado vai voltar a ser o que talvez eu tenha estudado para ser, que é uma pessoa que pensa o Direito e não uma pessoa que fica sentada 12 horas por dia executando um trabalho manual”, afirmou.

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