Sarampo volta a preocupar o Brasil e médicos alertam para riscos neurológicos

Baixa cobertura vacinal e importação do vírus aumentam o risco de novos casos e surtos no país

O Brasil voltou a enfrentar um cenário de alerta em relação ao sarampo, com casos já confirmados no país e concentração principalmente no estado de São Paulo. Embora tenha recuperado, no final de 2024, o certificado de país livre da circulação endêmica da doença concedido pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e pela Organização Mundial da Saúde (OMS), a redução da cobertura vacinal, associada à importação do vírus, tornou-se um dos principais fatores para o reaparecimento de casos. O cenário, segundo os médicos Marco Orsini e Eduardo Morsch de Mello e a pesquisadora Eduarda Iennaco, reforça a necessidade de ampliar a vacinação e manter a população atenta também às complicações que podem atingir o sistema nervoso.

O sarampo é tradicionalmente associado ao surgimento de manchas avermelhadas na pele, sintomas respiratórios e alterações oftalmológicas. No entanto, a infecção também pode provocar comprometimentos neurológicos importantes, que podem ocorrer de maneira aguda ou tardia. “Conhecemos a doença pela eclosão de manchas, distúrbios respiratórios e danos oculares, mas poucos se atentam para a capacidade do vírus de invadir ou desencadear reações imunes que, no cérebro, podem levar a sequelas permanentes ou ao óbito”, alertam os especialistas.

Uma das complicações é a encefalite aguda pós-sarampo, que ocorre em aproximadamente um a cada mil indivíduos infectados e pode surgir dias ou semanas depois do aparecimento do exantema, nome dado às manchas vermelhas características da doença. Dor de cabeça, rigidez de nuca e vômitos podem representar sinais de alerta para formas graves da infecção. Em situações de maior gravidade, o quadro pode evoluir para sonolência, confusão mental, crises epilépticas e coma. A condição merece atenção pelo potencial de provocar consequências severas: pode ser fatal em cerca de 20% dos casos e deixar sequelas cognitivas, motoras e comportamentais em aproximadamente um quarto dos pacientes que sobrevivem.

Outra manifestação possível é a encefalomielite, condição que compromete o cérebro e a medula espinhal e pode provocar destruição da mielina, substância que reveste os neurônios. Entre os sintomas estão fraqueza muscular, dificuldades de equilíbrio e distúrbios visuais. Também existem outras condições neurológicas relacionadas ao sarampo, como a encefalite por corpos de inclusão, observada principalmente em indivíduos imunocomprometidos. Casos de síndrome de Guillain-Barré, embora raros, também podem surgir dias ou semanas após a infecção inicial, provocando fraqueza progressiva e podendo chegar à paralisia.

Para a pesquisadora Eduarda Iennaco, a discussão sobre o sarampo precisa ultrapassar a percepção de que se trata apenas de uma doença marcada por febre e manchas na pele. “Quando falamos em sarampo, precisamos compreender que estamos diante de uma infecção altamente transmissível e que pode desencadear complicações muito sérias, inclusive neurológicas. A informação de qualidade é fundamental para que as famílias reconheçam sinais de alerta, procurem atendimento diante de sintomas preocupantes e, principalmente, compreendam que a vacinação continua sendo a principal estratégia de prevenção. A proteção não se limita ao indivíduo vacinado, mas contribui para reduzir a circulação do vírus e proteger pessoas que não podem receber o imunizante”, afirma.

Os médicos também chamam atenção para a elevada capacidade de transmissão do vírus. Segundo Eduardo Morsch de Mello, o sarampo está entre as doenças infecciosas mais contagiosas conhecidas. “O vírus do sarampo é um dos mais infectantes conhecidos. Em uma população que não está imune, uma única pessoa infectada pode transmitir o vírus para até 90% das pessoas próximas”, explica. Diante desse potencial de disseminação, os especialistas defendem que a população redobre a atenção e participe das campanhas de vacinação, evitando a falsa percepção de que o risco já teria desaparecido em razão do certificado conquistado pelo país.

A vacinação, entretanto, precisa considerar situações específicas em que determinados grupos não podem receber o imunizante. Entre as contraindicações estão gestantes, pessoas gravemente imunocomprometidas e indivíduos com alergia aos componentes da vacina. Para esses grupos, a proteção dos vacinados ao redor ainda ajuda a reduzir a circulação do vírus. “Para esses indivíduos, os vacinados ao seu redor funcionarão como um grande abraço fraterno, dificultando a chegada do vírus até eles”, destaca Eduardo Morsch de Mello.

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