Inteligência artificial passa a pesar no valuation e redefine a vantagem competitiva das empresas

Com avanço da adoção corporativa, investidores e executivos começam a olhar a IA menos como ferramenta isolada e mais como infraestrutura de produtividade, escala e geração de valor

Durante décadas, a vantagem competitiva foi associada a fatores como escala, marca, acesso a capital e eficiência operacional. Com a aceleração da inteligência artificial no ambiente corporativo, esse cálculo começou a mudar. A tecnologia deixou de ser tratada apenas como apoio à operação e passou a entrar na conta estratégica de crescimento, produtividade e percepção de valor das companhias. Em 2024, 78% das organizações ouvidas no AI Index, de Stanford, disseram usar IA em ao menos uma função de negócio, ante 55% em 2023. No mesmo ano, o investimento corporativo em IA chegou a US$252,3 bilhões no mundo, com avanço de 44,5% no investimento privado.

O movimento ajuda a explicar por que a discussão sobre inteligência artificial começa a migrar do campo da inovação para o centro da estratégia empresarial. A McKinsey mostra que, em 2025, 88% dos entrevistados afirmaram uso regular de IA em pelo menos uma função de negócio, mas apenas cerca de um terço das empresas conseguiu escalar seus programas de forma mais ampla. O dado sugere que a diferença competitiva já não está em experimentar IA, e sim em integrá-la com profundidade suficiente para alterar fluxos, custos e capacidade de execução. 

Essa diferença importa porque produtividade e crescimento seguem sendo variáveis centrais na formação de valor. Segundo o PwC 2025 Global AI Jobs Barometer, os setores mais expostos à IA registraram crescimento de produtividade quase quatro vezes maior desde 2022 e expansão da receita por empregado de 27%, contra 9% nos segmentos menos expostos. O estudo também aponta que a tecnologia tem aumentado o valor do trabalho e não apenas substituído postos, o que reforça a leitura de IA como multiplicador de capacidade operacional.

No Brasil, a incorporação da tecnologia também avançou de forma relevante. Dados da Pesquisa de Inovação Semestral do IBGE mostram que 41,9% das empresas industriais com 100 ou mais empregados utilizaram inteligência artificial em 2024, ante 16,9% em 2022. Entre as áreas de negócio, a comercialização aparece entre as frentes de uso mais frequente, ao lado de administração e desenvolvimento de produtos, indicando que a IA já começa a ser absorvida em funções ligadas diretamente à receita e à eficiência comercial. 

É nesse contexto que a inteligência artificial passa a influenciar também a forma como o mercado enxerga a qualidade do crescimento de uma empresa. Historicamente, indicadores como receita, margem e expansão de mercado dominaram as análises de valuation. Agora, passam a ganhar peso adicional fatores como capacidade de operar com menor custo marginal, uso de dados estruturados, integração tecnológica e potencial de escalar processos críticos sem aumento proporcional de estrutura. A própria McKinsey aponta que as companhias com melhor desempenho em IA costumam combinar liderança executiva, redesenho de fluxos, governança de validação humana, estratégia de dados e investimentos mais robustos em tecnologia. 

Esse ponto é relevante porque parte importante do mercado ainda confunde adoção de IA com simples automação superficial. A proliferação de ferramentas no-code e de soluções baseadas apenas em respostas automatizadas ajudou a popularizar a tecnologia, mas nem sempre resolve os problemas centrais da operação. Sem integração com CRM, ERP, base histórica de dados e processos de validação, muitos projetos ficam restritos ao piloto, sem capacidade real de capturar ganho estrutural. O próprio levantamento da McKinsey mostra que a maior parte das empresas ainda não conseguiu transformar o uso de IA em impacto material em nível corporativo. 

É justamente nessa lacuna entre experimentação e infraestrutura que empresas especializadas tentam se posicionar. A Beezz.ai, startup brasileira focada em IA comercial, defende que o valor da tecnologia não está em responder mensagens de forma automática, mas em estruturar uma camada operacional capaz de apoiar aquisição, relacionamento e conversão com mais consistência. A tese da companhia é que agentes comerciais baseados em código próprio, arquitetura de dados, recuperação contextual de informação e integração com sistemas internos tendem a gerar uma vantagem mais defensável do que soluções genéricas montadas apenas sobre fluxos prontos.

Sob essa lógica, o debate sobre IA deixa de ser apenas tecnológico e passa a ser econômico. Empresas que conseguem transformar inteligência artificial em ativo operacional recorrente tendem a melhorar a previsibilidade comercial, velocidade de resposta, capacidade de atendimento e alocação de pessoas em tarefas de maior valor agregado. Em vez de um simples corte linear de custos, a tecnologia passa a configurar a produtividade do negócio.

Para companhias que buscam crescimento, a implicação é direta. A questão não é mais se haverá adoção de IA, mas quais organizações conseguirão incorporá-la de forma suficientemente profunda para produzir ganho de eficiência, reforçar barreiras competitivas e sustentar uma narrativa de valor mais robusta diante de investidores, clientes e mercado. Em um ambiente em que capital continua mais seletivo e expansão exige mais disciplina, a inteligência artificial começa a ser lida menos como tendência e mais como componente da própria infraestrutura de geração de valor.

Compartilhar

Últimas

Mais buscadas

Relacionadas

Fiscalização digital da ANTT expõe fragilidade de operações de frete não integradas

Com cruzamento eletrônico de dados, controlar CIOT, piso mínimo e documentação separadamente virou risco para embarcadores

Ídolo do Celta e ex-Internacional, Hugo Mallo mira novo capítulo da carreira

Com 449 jogos pelo clube espanhol e passagem pelo Internacional, lateral mantém preparação intensa, recebe sondagens e aguarda com expectativa o retorno aos gramados

A memória do servidor dobrou de preço e tirou a empresa média do jogo da IA

Enquanto os data centers de inteligência artificial consomem a capacidade global de fabricação de chips, o módulo de memória que faz um servidor funcionar saltou de US$ 450 para mais de US$ 900 em poucos meses. Para a pequena e a média empresa brasileira, o efeito prático é ficar de fora da corrida por um motivo que ninguém está discutindo: preço de hardware. Há saídas, e elas não passam por comprar equipamento de última geração

Iter: legaltech usa IA para transformar o contencioso tributário

Fundada pelo advogado Lucas Barbosa Oliveira, a Iter utiliza inteligência artificial proprietária para monitorar processos tributários, identificar medidas jurídicas e preparar minutas em horas