Meninas quietas, inteligentes e consideradas “distraídas” podem ter sintomas de TDAH que só ficam mais evidentes quando as demandas da vida aumentam
Quando se fala em TDAH, a imagem mais comum ainda é a da criança agitada, impulsiva e que não para quieta. Mas essa não é a única forma de apresentação do transtorno.
Em meninas, especialmente naquelas com predomínio de sintomas de desatenção, os sinais podem ser menos visíveis. Esquecer tarefas, perder objetos, ter dificuldade de organização ou parecer estar constantemente “no mundo da lua” podem ser interpretados como distração ou falta de esforço.
É justamente esse olhar que a pediatra Dra. Ana Cláudia Tavares, que atua com desenvolvimento infantil e neurodesenvolvimento, busca ampliar em seu trabalho.
“Meu olhar não começa apenas no comportamento que a menina apresenta hoje. Eu procuro entender a história desde a infância: como ela aprendia, como se organizava, quais dificuldades já existiam e quanto esforço fazia para compensá-las”, explica.
Segundo a médica, muitas mulheres chegam à avaliação somente quando as demandas da vida adulta aumentam: trabalho, casa, filhos, relacionamentos e inúmeras responsabilidades passam a exigir um nível de organização que antes era compensado por outras estruturas.
Isso não significa que toda mulher esquecida ou desorganizada tenha TDAH. O diagnóstico exige uma avaliação cuidadosa, considerando a persistência dos sintomas, a história desde a infância, sua presença em diferentes contextos e os prejuízos no funcionamento.
“Às vezes, para compreender a mulher que está diante de mim hoje, precisamos voltar para a menina que ela foi”, afirma Dra. Ana Cláudia.
A literatura científica também chama atenção para essa diferença na identificação do TDAH em meninas. Uma revisão publicada no Journal of Child Psychology and Psychiatry destaca que os sintomas podem ser menos evidentes e contribuir para o subdiagnóstico nessa população.
Referência: Hinshaw SP et al. J Child Psychol Psychiatry. 2022;63(4):484-496. doi:10.1111/jcpp.13480.
