Distúrbios endocrinológicos na neurologia: uma realidade que exige atenção

Marco Orsini e Luiza Travalloni destacam a importância da investigação hormonal e metabólica

Alterações comportamentais, falta de coordenação motora, problemas relacionados aos nervos periféricos e músculos, movimentos anormais ou crises epilépticas sem causa evidente podem ter uma origem que nem sempre é investigada inicialmente: os distúrbios endocrinológicos e metabólicos. A relação entre neurologia e endocrinologia é mais próxima do que muitas vezes se imagina, e uma triagem relativamente simples pode contribuir para identificar alterações capazes de explicar manifestações neurológicas aparentemente sem causa definida. É nesse ponto de interseção entre cérebro, nervos, músculos e metabolismo que os médicos Marco Orsini e Luiza Travalloni chamam atenção para a necessidade de uma investigação clínica cuidadosa.

Para a médica Luiza Travalloni, alguns exames rápidos e úteis podem fazer parte dessa avaliação, especialmente em pacientes que apresentam sintomas neurológicos sem uma explicação evidente. Entre eles estão a glicemia, a avaliação dos hormônios da tireoide e a análise dos chamados eletrólitos, como sódio, potássio e cálcio. Alterações nesses parâmetros podem revelar condições endocrinometabólicas capazes de provocar ou agravar manifestações neurológicas. “Avalio com frequência casos de confusão mental, encefalopatias e outras doenças neuroimunes por disfunção endocrinológica. Achados de envolvimento endocrinológico não são infrequentes”, afirma Luiza.

Segundo a especialista, neurologia e endocrinologia são áreas que caminham próximas e, por isso, pacientes que apresentam determinados sinais devem ser avaliados também sob a perspectiva hormonal e metabólica. A investigação não deve ser vista apenas como uma etapa complementar, mas como parte de uma abordagem que pode modificar significativamente o diagnóstico e a condução do caso. “São áreas que caminham bem próximas e, indubitavelmente, todo paciente com algum dos sintomas citados merece tal investigação”, reforça.

A importância dessa abordagem está também na possibilidade de reversibilidade. Uma manifestação neurológica pode, em determinadas situações, ser consequência de uma alteração hormonal ou metabólica que ainda não foi identificada. Quando a endocrinopatia de base é diagnosticada e tratada adequadamente, os sintomas neurológicos podem regredir de forma significativa ou até desaparecer. “Uma investigação cautelosa é particularmente relevante porque o diagnóstico e tratamento da endocrinopatia de base pode reverter completamente ou melhorar substancialmente a manifestação neurológica”, destaca Luiza. A troca de conhecimento entre as especialidades é outro elemento considerado fundamental. “Sempre trocamos saberes”, resume.

Na prática neurológica, essa conexão pode ser observada de maneira especialmente evidente nas doenças neuromusculares e nas neuropatias periféricas, áreas de atuação de Marco Orsini. Médico responsável pelo Centro de Estudos do Hospital Niterói Dor, Orsini chama atenção para a relação entre alterações metabólicas e o comprometimento dos nervos. “Nas neuropatias, a relação pode ser muito mais forte: a neuropatia periférica diabética é atualmente uma das complicações neurológicas mais comuns do diabetes, chegando a atingir aproximadamente 36% dos diabéticos em uma meta-análise publicada em 2026”, afirma Orsini.

O diabetes é apenas um dos exemplos dessa relação. De acordo com Orsini, diferentes doenças endocrinológicas podem apresentar manifestações neurológicas variadas, algumas delas bastante inespecíficas e que podem inicialmente ser atribuídas exclusivamente a condições neurológicas. “A literatura neurológica enfatiza que hipo/hipertireoidismo, alterações do cálcio, doenças adrenais e diabetes podem produzir desde sintomas cognitivos e psiquiátricos até miopatia, neuropatia, distúrbios do movimento, ataxia e encefalopatia”, explica.

Na cognição, por exemplo, alterações da tireoide, do cortisol, da glicose e do cálcio podem interferir na memória, na atenção, no comportamento e no estado mental. Em alguns pacientes, confusão mental e alterações comportamentais podem ser os primeiros sinais de um desequilíbrio metabólico. Por isso, diante de sintomas cognitivos sem explicação clara, a investigação endocrinometabólica pode contribuir para encontrar uma causa tratável.

Nos músculos, doenças da tireoide, das adrenais e das paratireoides também podem provocar fraqueza e miopatias. O paciente pode apresentar redução de força, dificuldade para realizar movimentos ou limitações funcionais que, dependendo do quadro, podem ser confundidas com outras doenças neuromusculares. A identificação da alteração hormonal ou metabólica de base é fundamental para direcionar o tratamento.

Já nos nervos periféricos, o diabetes ocupa lugar de destaque. Alterações persistentes da glicose podem comprometer os nervos e provocar sintomas como formigamento, dormência, dor, queimação e perda de sensibilidade, principalmente nos pés e nas pernas. Outras alterações metabólicas também podem estar associadas a neuropatias, reforçando a necessidade de uma avaliação ampla.

Em situações envolvendo epilepsia e encefalopatia, alterações metabólicas agudas também merecem atenção. Hipoglicemia, hiponatremia, hipocalcemia e outros desequilíbrios podem provocar crises, alterações de consciência e manifestações neurológicas. Nesses casos, reconhecer rapidamente a causa metabólica pode ser determinante para o atendimento e para a prevenção de novos episódios.

Os distúrbios endocrinológicos também podem se manifestar por meio de movimentos anormais. Alterações do cálcio e das paratireoides, entre outras condições, podem estar relacionadas a manifestações como parkinsonismo, distonia e outros distúrbios do movimento. Da mesma forma, alterações envolvendo a hipófise podem produzir sintomas neurológicos importantes. Tumores hipofisários, por exemplo, podem provocar alterações visuais, cefaleia e síndromes hormonais com repercussões sobre o sistema nervoso.

Para Luiza, esse conjunto de manifestações reforça um ponto essencial na prática médica: “o ponto-chave”. As endocrinopatias não devem ser encaradas apenas como um diagnóstico diferencial “teórico” dentro da neurologia. Muitas manifestações neurológicas relacionadas a alterações hormonais e metabólicas são potencialmente reversíveis quando a causa é reconhecida e tratada.

Essa relação ocorre porque hormônios e metabolismo influenciam diretamente o funcionamento do cérebro, dos nervos e dos músculos. Ao mesmo tempo, algumas doenças neurológicas podem interferir em sistemas responsáveis pela regulação hormonal. Dessa forma, compreender essa conexão permite ampliar o olhar clínico e evitar que sintomas potencialmente tratáveis permaneçam sem uma explicação adequada.

A mensagem dos especialistas é, portanto, de integração. Diante de alterações cognitivas, comportamentais, musculares, sensitivas, motoras ou episódios neurológicos sem causa evidente, investigar também aspectos endocrinológicos e metabólicos pode ser decisivo. Mais do que estabelecer uma relação entre duas especialidades, essa abordagem representa uma oportunidade de encontrar diagnósticos tratáveis e devolver ao paciente qualidade de vida, funcionalidade e, em muitos casos, uma perspectiva concreta de recuperação.

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